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TAPIRI ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO:
Um espaço para reflexão sobre Ecoteologia, na COP30.
Parte 3
O evento Articulação Ecumênica e Inter-religiosa denominado Tapiri, se inspirou, etimologicamente, nas raízes indígenas do Alto do Rio Negro, na Amazônia. O nome Tapiri indica um lugar temporário, de passagem, não de morada fixa. Lugar onde todos se sentam para a troca de conhecimento, saberes e afetos.
O Tapiri, no calendário da COP30, quis dialogar com várias vozes proféticas e conduzir a uma reflexão sobre a ecoteologia e o fundamentalismo religioso e político e suas consequências, principalmente no que diz respeito à eliminação de direitos básicos das criaturas e a sobrevivência equilibrada do ecossistema.
Seguindo essa pauta, o Tapiri foi percorreu um fio sócio teológico; no qual as criaturas denunciam, dialogam, propõem incidências políticas e se inserem numa espiritualidade contemporânea. A espiritualidade e expressões dos povos tradicionais – indígenas, quilombolas e nativos da Amazônia – contribuíram significativamente com a roda de conversa.
Quatro eixos centrais foram propostos para o diálogo: Terra, Território e Soberania; Justiça Climática, Democracia e Direitos; Enfrentamento ao Racismo Religioso e Ambiental; Protagonismo de juventudes, crianças, adolescentes, mulheres e diversidades LGBTQIAPN+.
Padre Dário Bossi (Missionário Comboniano e Membro da Comissão Especial para Ecologia Integral e
Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB) mediou o debate com a presença de Dom Vicente Ferreira (também da Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração da CNBB); Bispa Marinez Bassoto (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB); Pastor Batista Josias Vieira (Nós da Criação); Luiz Felipe (Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida); Felício Pontes (Procurador Geral da República e membro da REPAM).
Num ambiente fraterno e de muito respeito às expressões religiosas, cada um dos convidados contribuiu com reflexões e revisões das narrativas bíblicas num contexto bem provocativo.
Em destaque algumas reflexões :
Bispa Marinez Bassoto (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil). “Precisamos rever nossa visão sobre o Criador, que imagem fazemos dele. A teologia ocidental cristã nos ensina que o Criador está fora e longe de sua criação. Um Criador totalmente transcendente. A gente desvinculou a criação do Criador. As crises climáticas, que estamos sentindo na pele, não é algo distante. Precisamos acreditar que o Criador está em toda a criação, sem haver distinção. Também temos a visão da prioridade criacional; e os seres humanos passaram a sentir-se como tal. E, existe um recorte de gênero, em que os homens passaram a se entenderem como superiores às mulheres. Nós existimos com tudo o que existe. Se não dermos conta disso, não vamos existir. A enfermidade do planeta somos nós, os seres humanos. Com nossas ações e desrespeitos e incompreensões sobre o Criador e a criação, não nos entenderemos como parte do todo; e sofreremos. Os povos originários nos ensinam que eles são a chave para essa mudança, para essa compreensão da teologia”.
Luiz Felipe Lacerda (Jesuíta, Secretário-Executivo do Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA). “Após 10 anos do acordo vigente, Acordo de Paris, e celebrando 10 anos da Encíclica Laudato Si, e recebendo pela primeira vez a Conferência das Partes – Cop30, na Amazônia, é um momento muito importante, momento de kairós, de celebração da caminhada que fez a gente chegar até aqui. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem que olhar com urgência para o contexto, porque o tempo nos diz que estamos atrasados. A Campanha da Fraternidade, deste ano, foi muito clara: a gente tem que voltar para as bases e trabalhar na perspectiva da crise climática. A crise que a gente vive, não é uma crise climática, mas civilizatória. A nossa sociedade está numa crise de valores, e começa com tudo o que tem a ver conosco, como comunidade de fé. Nós dessacralizamos a natureza. Por que as comunidades indígenas, quilombolas e do terreiro vem aqui e falam e fazem de suas formas, e nossos olhos brilham? Porque tem encantamento, magia, sagrado, tem a mística e tem o segredo. A gente desmoralizou a natureza como um objeto, uma mercadoria – a gente explora. Então, o nosso trabalho como comunidade de fé é justamente fazer esse movimento. Que as pessoas retornem ao elemento do sagrado. E, neste momento político em que a gente vive, isso é muito mais profundo e delicado, porque o discurso religioso foi aparelhado politicamente, para colocar uns contra os outros. É o terreiro contra o evangélico, o evangélico contra o católico… Isso não existe. A gente tem que construir um outro processo. Por isso, o diálogo inter-religioso é uma ferramenta potente. Para mudar essa democracia fragilizada e polarizada e reconectar as pessoas ao sagrado da natureza. Neste sentido, o exercício inter-religioso pode recolocar a natureza como pano de fundo do diálogo, para que todas as fés e religiões tenham a natureza num lugar central. Destaco o papel das mulheres nas comunidades de fé. Isso tensiona a nossa Igreja Católica especificamente. A gente tem que refletir e abrir espaço para essa discussão. Qual é o papel das mulheres na comunidade? Qual é o respeito para com elas? Pensemos na hierarquia, nas suas reivindicações… Qual é o seu espaço? As ações, em sua maioria, são tocadas pelas mulheres.
Observação: ■170 denominações religiosas assinaram 4 agendas estratégicas para trabalharmos juntos no Pós-COP30.
1-Revisar a dívida externa no Sul Global – rever as dívidas públicas; 2- Fortalecer fundo de perdas e danos para fortalecer dívida com os povos; 3- Estabelecer transição energética que seja justa (não espaço de disputa política e econômica nacional e internacional); 4- Construir um sistema alimentar baseado na agricultura familiar e agroecologia – discutir sobre agrotóxico, agronegócio, reforma agrária, entre outros.
■O Brasil precisa assinar o Acordo Escazu, principal documento socioambiental, latino-americano. Esse documento envolve a participação social, defesa dos defensores ambientais. Precisamos aprender a trabalhar em rede para as grandes pautas locais, nacionais e internacionais.”
Dom Vicente Ferreira (Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração da CNBB). “Gostaria de começar registrando que estive na Romaria de Mariana/MG, na Bacia do Rio Doce, celebrando os 10 anos da tragédia e crime da Vale e da Samarco. Foi um evento que encheu a gente de esperança por ver as vozes dos atingidos(as). Quero chamar a atenção, também, porque quando chegamos no aeroporto, os tótens que nos acolheram foram as marcas das mineradoras. Eu pensei: Meu Deus! Em Mariana, o grito era Mineração, aqui não! Esses dois fatos é para dizer sobre as contradições sistêmicas. Quando se chega nas instâncias maiores, eles se dizem os ‘defensores da natureza’, mas estão destruindo o nosso povo e nossa terra. Gostaria de afirmar que nós, da Igreja Católica, estamos comprometidos com a ecologia integral. Temos uma Comissão Especial para tratar dessas questões. Em 2025, a Campanha da Fraternidade “Ecologia Integral” promoveu inúmeras mobilizações. Foi organizado um trabalho sistematizado de pré-COP e Rumo à COP30: encontro nas 5 regiões: mobilizando, conscientizando, chamando as comunidades a pensar mais na Laudato Si, na Ecologia Integral. Em dois Documentos da Comissão Ecologia Integral da CNBB, nos posicionamos diante de muitas narrativas. Porque, agora, todo mundo está capturando esse tema da ecologia integral. Agora é: o capitalismo é verde; a economia é verde; a mineração verde. Tudo virou verde! Enquanto Igreja, temos que ter a responsabilidade de questionar isso. Qual é a nossa posição? Para nós, o que é ecologia integral? As encíclicas Laudato Si e Laudato Deum é sinal de profetismo e, também, crítica. Papa Leão XIV também está trazendo esses temas para as ações eclesiais. Uma economia que mata, não pode dizer que é verde. Como seres de espiritualidade, temos que combater esse domínio de narrativa. Até os nossos pobres acreditam em projetos de desenvolvimento contrários à ecologia integral. Acreditam que irão participar desses projetos, mas, normalmente, não se beneficiam. O que vão decidir aqui na COP30, na Zona Azul, está muito aquém do que o Documento dos Bispos do Sul Global propõe. Uma narrativa lamentável! Como pode o Norte Global sustentar uma economia privilegiada de 1% que tem mais de 50% da riqueza do mundo? E, ainda, cobra de nós uma dívida enorme? Somos nós que damos para eles nossas riquezas. As riquezas da América Latina são o motivo das nossas pobrezas, como é na África. Qual seria a solução inter-religiosa? Se a ecologia integral não nos convencer a nos darmos as mãos, não promover o diálogo inter-religioso, nada mais vai nos convencer. Se não unirmos nossas espiritualidades para a defender a Casa Comum, nada não vai nos converter, primeiro porque não teremos vida, não teremos casa”.
Observação: ■Acesse o site da CNBB (https://www.cnbb.org.br) para conhecer os Documentos Formativos sobre Ecologia Integral e o Documento do Sul Global dos Bispos (América Latina, África, Ásia).
Pastor Josias Vieira Kaeté (Pastor Batista e do Movimento Nós da Criação). “O tema Ecoteologia e Espiritualidade para um novo encontro com a criação à luz da ancestralidade e dos desafios atuais, exige mudanças; ou nos tornamos seres de uma espiritualidade sintética. A partir dos pensadores Antônio Bispo dos Santos, ancestral, a partir de um quilombo do Piauí, e de A. B. Langston – teólogo batista que defende que os humanos querem sempre transformar o orgânico em sintético, precisamos mudar. Os orgânicos querem apenas viver como orgânicos. Para os ancestrais, não se trata de desenvolver, mas envolver. Quando nos envolvemos organicamente, é diferente. Mas muitos querem sintetizar – o que resulta numa mística sintética. Enquanto humanidade, precisamos nos organicizar. O trecho bíblico sobre ancestralidade Hb 1,1-3: Deus falava de muitas formas aos vossos antigos, aos vossos pais e profetas (…). Precisamos fazer uma rede para organicizar, porque senão não conseguiremos expressar espiritualidade alguma. Porque se se materializar neste espaço, não adianta pensar que algo é eterno. Na ecoteologia, enquanto espiritualidade, tudo está relacionado às fontes. Pensando que o estado brasileiro, primeiro, é um produto colonial; depois, expressa a partir da Proclamação da República, a colonialidade, vemos que a teologia não é diferente. Porque o cristianismo que chega a esta terra, chega primeiro para legitimar a colonização e, depois, é mantenedor do etos da colonialidade e da exploração. Primeiro, precisamos entender, ver os erros que cometemos historicamente, para que a gente possa ir corrigindo com novas posturas e novos posicionamentos. É uma nova forma de fazer teologia, uma nova espiritualidade que é alinhada e aliada aos outros e outras, irmãos de manifestações de fé. Para que a gente consiga encontrar caminhos e resistir a isso, que caracterizamos de crise climática, mas que, na realidade, nasce de um problema civilizatório, precisamos rever nossa teologia. Porque nenhum ser causa danos à natureza como o ser humano. Temos sido a doença que infecta a Mãe Terra. Se a minha espiritualidade não entender uma ecoteologia que nos ensine a viver harmonicamente com meus irmãos e irmãs, e, também, com outras manifestações de fé, e defender o território, eu não me converti. A teologia cristã só conhece um Deus criador de tudo o que existe. Afinal de contas, lemos que toda a criação manifesta a glória de Deus; anuncia as obras de suas mãos. Por que insistimos que o ser humano é central frente a todas as coisas? Por que se as manifestações de fé apoiam a mineração que degrada? Alguma coisa está errada. Como sempre disseram meus ancestrais: o que é essa terra sem males? Traduzindo pelo evangelho: é esse o reino de Deus. Traduzindo para o Tupi: lugar onde não tem doença, terra sem tristeza.”
Dr. Felício Pontes (Procurador Geral da República e membro da REPAM). “Eu irei dar um testemunho do que eu faço e vejo dentro do meu trabalho. Eu atuo aqui no Tribunal de Apelação da Amazônia e do Cerrado, eu só atuo com conflitos, brigas e guerra. Eu tenho a missão de fazer a defesa jurídica das comunidades e povos tradicionais. Eu vejo que tem uma disputa pelo Amazonas e pelo Cerrado, com dois grupos muito bem definidos: Um deles eu chamaria de arautos do modelo do desenvolvimento predatório; e o outro, os defensores do socio ambientalismo. Eles são muito claros nessa disputa, quando estamos lutando para ser recuperado o rio Cateté por tudo que a Vale fez; na mina de lítio na montanha da Onça Puma, no sul do Pará. Isto fica muito claro quando lutamos contra as empresas hidrelétricas no Jirau, Santana e rio Madeira, em Rondônia, quando eles destruíram o trabalho dos ribeirinhos e pescadores. Quando temos a invasão de madeireiros nas terras indígenas Alto Curiaçú, no Maranhão, que retira todas as possibilidades de sustento de pessoas que são habitantes daquela terra, além das afrontas aos índios isolados. Então, quais são as atividades desse primeiro grupo de desenvolvimento predatório? Classifico em 5 atividades: madeira, pecuária, mineração, monocultura e infraestrutura. Invariavelmente há mais de 1.800 recursos que nós acompanhamos dia a dia no Tribunal, em Brasília; em que de um lado tem algum representante de umas dessas 5 atividades. A infraestrutura: as estradas, hidrovias Araguaia-Tocantins, que nós conseguimos suspender essa licença para explosão do Pedral do Lourenço, no rio Tocantins, que é um monumento natural de quase 40 km. Onde só os barcos de pescadores podem passar, onde a barcaça de soja não passa. Então, a solução do governo é explodir o Pedral. Mas só que o Pedral é berçário de várias espécies que são importantíssimas para o comércio de peixe em Belém e em Marabá/PA. Então, essas 5 atividades estão disputando o território, a Amazônia. E do outro lado, temos o socio ambientalismo, para simplificar, com a defesa da agroecologia, defesa da natureza. Esse é o contorno, é o desafio que nós temos a enfrentar nessa situação. Eles nos acusam também, o que é o desenvolventíssimo? Vejo muito bem a visão deles nos processos. Então, eu me lembro de uma carta da Irmã Dorothy para seus familiares. A carta, no início desse século, descreve a Amazônia como um cenário desolador, onde os madeireiros e fazendeiros colocando fogo em tudo, destruindo tudo. No final, ela diz: ‘Nós precisamos nos reconectar com a Mãe Terra’. Quando eu li isso, me veio a imagem de São Francisco de Assis. Porque se há alguém que tinha essa conexão tão forte, e somos parte dela, é São Francisco de Assis. Onde é que nós quebramos essa conexão? O filósofo Rene Descartes (séc. XVII) diz: ‘O homem é mestre e senhor da natureza’. E vai dizer mais: ‘a natureza é uma máquina que precisa ser dominada’. “Dominus” é uma palavra muito forte, tanto na Teologia quanto no Direito. Ser “dominus”, eu acho que a gente nem consegue traduzir no Português, de tanto poder que essa palavra carrega. Esse pensamento de Descartes cai como uma luva sobre os nossos colonizadores, aqueles que vieram da Europa e aportaram nas três Américas. É isso: Vamos dominar lá, vamos tratar a natureza como máquina e vamos dominar. Nós temos hoje a consequência desse pensamento. A única coisa que eu poderia trazer é a mensagem da mata, da Amazônia, da ecologia integral para que ela estivesse presente, está presente em nosso Tapiri. E que a gente encontre meios para a reconexão com a natureza”.
Miriam de Souza – Missionária Leiga, junto as Irmãs de Jesus Bom Pastor-Pastorinhas em Adrianópolis/PR.
















