“A conveniente renovação da Vida Religiosa compreende não só o contínuo regresso
às fontes de toda a vida cristã e à genuína inspiração dos institutos,
mas também a sua adaptação às novas condições dos tempos.” (PC, 2).
Em 1962, ano da abertura do Concílio Vaticano II, fazia meu noviciado junto a outras 20 colegas. O evento foi muito enfatizado, graças ao espírito eclesial e atuação da nossa mestra. Dizia ser um grande marco para a Igreja e nós jovens, nem pesávamos que ele fosse nos afetar de maneira tão ampla e profunda. Como noviças e depois jovens religiosas, aprendemos e vivemos por quase uma década, no espírito da denominada Observância Religiosa, que era como a grande bandeira, sob a qual se constituía e mantinha a uniformidade, de dimensões abrangentes. Uniformidade no vestuário, na organização comunitária, no estilo de vida, frente às urnas eleitorais. Enquanto hoje, a sociedade em geral é pluralista, na época valorizava padrões de uniformidade, num estilo autoritário. O papel da autoridade gozava de grande destaque. Muitos confundiam unidade com uniformidade.
– O Vaticano II foi um divisor de águas, um sopro do Espírito Santo, um dom à Igreja. Nós, consagrados e consagradas, somos hoje gratos ao Concílio, pelo seu chamado a uma adequada renovação, sempre na fidelidade a Cristo, à Igreja, ao carisma do instituto e aos homens e mulheres do nosso tempo. Em outras palavras, somos gratos pela sua mensagem de volta às fontes, pelo destaque dado à missão e toda a inspiração que nos vem dele e, posteriormente, através do magistério da Igreja.O Concílio foi bem recebido pelos religiosos, pois respondia às aspirações, ao menos dos mais jovens. Foi realmente uma grande mudança passar de um estilo onde tudo era pré-determinado para um estilo mais aberto e participativo. A redescoberta dos valores da pessoa humana, sua dignidade, liberdade e responsabilidade; o reconhecimento da comunidade como lugar de crescimento pela participação responsável, não foi só rosas. Houve pessoas que se sentiram meio perdidas e outras que não sabiam o que fazer com sua liberdade para a qual não havia sido educada. Uns sentiram castelos ruindo. E houve muitas deserções.
À luz do Concilio foi surgindo uma nova compreensão e também nova maneira de viver a Consagração Religiosa, em maior proximidade ao povo, principalmente junto aos mais necessitados e excluídos e em frentes missionárias. Sentiu-se a exigência de uma revitalização espiritual, pois se entendeu que a função da Vida consagrada, antes que ser operativa é carismática.
O desafio foi ir se colocando na renovação criativa, a partir da constante referência ao Evangelho e ao carisma dos fundadores, com pés no chão no “novo” que as mudanças sócio-culturais vão gerando.
A trajetória do Vaticano II está longe de terminar. Ainda há orientações a serem assimiladas e postas em prática. A volta às fontes nos faz contemplar os primeiros cristãos, os quais foram vistos como a) um ponto de exclamação (Vejam como se amam!) e b) um ponto de interrogação (o que há nesses homens e mulheres que vão cantando, ao encontro das feras, cientes que serão devorados por elas?). Hoje é a Vida consagrada chamada a ser os dois pontos. Chamada a este testemunho de mística e profecia, a sinalizar o infinito e levar a sociedade a se interrogar sobre quais valores que ela busca e para onde está caminhando.
Frente ao que é solicitado hoje, à Vida Religiosa é exigida uma sólida formação, adequada aos tempos atuais, requisito para a evangelização e o diálogo com a cultura atual. Além da formação intelectual, é necessária uma constante escuta de Deus e escuta dos homens e mulheres, nossos contemporâneos.A Vida Religiosa Consagrada ainda tem uma “grande história a construir” (VC 110). O papa Francisco falou à Diretoria da CLAR que a “Vida Religiosa é para a Igreja como a quina de um navio, a coluna vertebral do barco, a que abre caminhos”. E acrescentou: “não deixem de lado os pobres.” Isto provoca a nos interrogar:
1. “Em nossa comunidade, como estamos vivendo as orientações do Concílio, após 50 anos do mesmo?
2. O que precisamos recuperar, avançar?
Ir. Antonia Brustolin, sjbp